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Embora a “Bahia formosa(atual Búzios); fosse batizada durante a primeira expedição naval portuguesa de reconhecimento do litoral brasileiro, entre 1501 e 1502, não há registro de qualquer ocorrência européia na ponta dos Búzios até cerca de 1575, onde os acampamentos de pesca, de coleta de moluscos e de caça continuavam a ser usados pelos grupos locais Tupinambá. Os navegantes estrangeiros logo descobriram que os portos de Búzios (praia da Armação), de Cabo Frio (barra da lagoa de Araruama) e do Arraial do Cabo (praia do Forno) eram os três únicos ancoradouros seguros no trecho da costa compreendido entre as baias de Vitória (ES) e da Guanabara (RJ). Mas, apesar do excelente porto e da abundante presença de pau-brasil na ponta dos Búzios, inexistente nas areias e elevações próximas ao porto do Arraial do Cabo, o consórcio responsável pelo arrendamento da nova terra portuguesa achada no Atlântico Sul, preferiu construir uma fortaleza-feitoria para exploração mercantil da madeira-de-tinturaria e escravização de índios no ancoradouro da barra da Araruama, em função do eixo de penetração naval da laguna, abrigado dos ventos e das turbulências marinhas litorâneas, que dava fácil acesso à floresta da margem continental com ocorrência abundante da ibirapitanga nativa. O estabelecimento pioneiro funcionou de 1503 a cerca de 1512 e sua destruição foi causada pelas “desavenças e desordens” entre os marinheiros ou colonos portugueses e os índios Tupinambá que trabalhavam na derrubada, “alimpadura” e transporte terrestre dos troncos até os botes dos navios, em troca de machados e outros instrumentos de ferro.

A segunda concessão particular para exploração de pau-brasil teve lugar

na baia da Guanabara entre 1513 e 1515, mas fracassou pela intervenção de um navio espanhol nessa área então controversa do Tratado de Tordesilhas. Porém, no ano seguinte, o governo português mandou construir uma fortaleza-feitoria real na costa de Pernambuco que manteve em funcionamento até 1533, apesar de tomada duas vezes por embarcações francesas. Logo depois, as autoridades metropolitanas deram início ao efetivo processo colonial com a divisão das terras litorâneas em capitanias hereditárias. A segunda porção da Capitania de São Vicente ficou mais ou menos superposta sobre a área de domínio Tupinambá na região sudeste brasileira, que englobava desde a Ilha Bela (SP) até o rio Macaé (7RJ), e, portanto, incluía tanto a ponta dos Búzios quanto o entorno regional Mas, como o território não foi conquistado e colonizado de imediato pelo donatário, alguns navios franceses passaram a traficar pau-brasil com os índios Tupinambá nos portos de Cabo Frio e do Rio de Janeiro em cerca de 1540, cuja freqüência alcançou quase 10 viagens por ano em 1548. Diante da lucratividade e da inexistente repressão, os armadores do tráfico decidiram construir fortalezas-feitorias no Rio de Janeiro e em Cabo Frio, respectivamente, em 1555 e 1556. Este sistema militar-comercial ficou conhecido como “França Antártica” e por um triz não pôs fim à colonização portuguesa na região sudeste brasileira, não só pelo domínio naval absoluto imposto, mas, também, pela intensificação da ação guerreira dos índios Tupinambá que passaram a dispor de modernas armas europeias e reuniram- se na chamada “Confederação dos Tamoios” contra o domínio da Capitania de São Vicente.

A fortaleza francesa da Guanabara foi destruída em 1560 e os grupos locais

Tupinambá foram afinal derrotados cinco anos mais tarde, quando os portugueses fundaram a Cidade do Rio de Janeiro. Depois de se manterem no interior das muralhas da nova povoação durante 10 anos, assediados pelos intermitentes ataques das embarcações francesas e canoas indígenas que vinham de Cabo Frio, o recém-nomeado governador da Capitania do Rio de Janeiro conseguiu reunir uma força terrestre e naval nunca vista antes na região sudeste brasileira, composta por 400 homens brancos e 1.300 índios Tupiniquim, com o objetivo de arrasar o baluarte franco-tamoio de Gecay. A “Casa de Pedra” e as recentes fortificações no entorno da barra da lagoa de Araruama foram cercadas e tomadas à traição. Cerca de 1.000 defensores foram imediatamente executados e outros 1.000 tornaram-se cativos, sob os olhares cúmplices e ao mesmo tempo atônitos de dois religiosos jesuítas que participavam da “Guerra do Cabo Frio”. Mas as tropas aliadas vitoriosas ainda avançaram terra a dentro, incendiaram aldeias, assassinaram cerca de 10.000 índios e escravizaram outros tantos. Horrorizados, os sobreviventes refugiaram-se na serra do Mar e a terra milenar Gecay virou um deserto humano porque os conquistadores alegaram falta de gente e descumpriram a ordem real para fundar uma cidade em Cabo Frio à época Desde 1580 até 1640, Portugal ficou submetido ao domínio da Espanha. Logo, os navios das nações europeias inimigas dos castelhanos afluíram á costa brasileira. Entre 1580 e 1615, muitas embarcações francesas, holandesas e inglesas dirigiram-se ao porto de Cabo Frio para carregar pau-brasil, apesar do bloqueio imposto pelos portugueses do Rio de Janeiro e da falta de mão-de-obra indígena no local. Algumas optaram pelo porto de Búzios, embora, às vezes, fossem surpreendidas e capturadas. Esta pilhagem atingiu o auge de organização, quando o governador da Capitania do Rio de Janeiro fez-se sócio de traficantes ingleses para carregar pau-brasil em Cabo Frio, mas foi por eles enganado e teve que expulsá-los em 1615, depois de conseguirem levantar uma fortaleza-feitoria na barra da Araruama. No mesmo ano, o governador recebeu ordem real espanhola para voltar à região, fundar uma cidade, construir uma fortaleza e assentar duas aldeias de índios aliados em sítios estratégicos – uma das quais na ponta dos Búzios. Obedeceu com a maior brevidade, porém só cumpriu a ordem de fundar a Cidade de Cabo Frio e a fortaleza de Santo Inácio na barra da Araruama.

Entre 1616 e 1623, o capitão-mor de Cabo Frio reservou as areias da restinga

para o assentamento da cidade e doou quase todas as terras continentais propicias à pecuária ou à agricultura para alguns poucos indivíduos ou corporações religiosas do Rio de Janeiro, apesar de terem sido obrigados a revalidar seus títulos de propriedade com os herdeiros da Capitania de São Vicente. Entre 1617 e 1630, a instalação da Aldeia de São Pedro, composta por índios aliados Tupiniquim e sob a direção dos padres jesuítas, seguida pela inauguração do forte São Matheus na barra da Araruama e pela colocação de vigias (desde a ponta dos Búzios até o cabo de São Tomé) permitiram que os portugueses combatessem desembarques inimigos e evitassem tentativas de conquistas francesas, holandesas ou inglesas. Permitiram, também, a atração para a Aldeia de São Pedro dos descendentes de ex-escravos fugitivos Tupinambá que viviam numa maloca perto do no Macaé. E, ainda, possibilitaram a derrota dos índios Goitacá, a conquista do norte fluminense e o abrigo dos grupos locais sobreviventes na chamada então “Grande Aldeia de São Pedro do Cabo Frio”. Em nome da etnia recém-submissa e através de solicitação do Colégio da Companhia de Jesus no Rio de Janeiro, os religiosos de São Pedro receberam a doação de uma ambígua sesmaria que lhes dava a possibilidade futura de escolher entre as terras do rio Una e as terras da ponta dos Búzios. A população Tupiniquim, Tupinambá e Goitacá do aldeamento passou a se dedicar ao cultivo de mandioca, feijão e milho dentro do território indígena, à coleta de sal cristalizado naturalmente numa depressão embrejada da Araruama e à pesca tanto na laguna quanto na ponta dos Búzios. A mando dos jesuítas, os índios ainda instalaram um curral e passaram a criar gado no entorno da lagoa de Geribá e de seus ranchos de pesca junto ao porto, mas logo foram acusados de vender pau-brasil para um traficante francês na baia Formosa.

A partir de 1660, a recém formada Câmara Municipal de Cabo Frio incentivou a compra de muitos escravos africanos ao liberar a comercialização do sal natural da lagoa de Araruama e promover o arrendamento temporário de várias praias da região para grossos negociantes de pescaria de arrasto, inclusive na ponta dos Búzios, como Geribá e Marimbondo (atual Ossos), apesar dos protestos dos jesuítas que consideram uma interferência abusiva no seu domínio territorial. Quase 30 anos depois, ao constatarem a impossibilidade da criação de gado se tornar lucrativa na ponta dos Búzios e ao arcarem com o prejuízo da destruição do curral por uma extraordinária enchente de verão, afinal os jesuítas optaram pelas terras do rio Una, onde construíram a fazenda Campos Novos, embora tenham incentivado os índios à manutenção de seus ranchos e de suas pescarias na mesma praia, junto ao porto.

A arregimentação forçada da mão-de-obra africana passou a se dar em quantidade

e freqüência ainda superior, desde que as autoridades coloniais usurparam o domínio legal da Câmara Municipal de Cabo Frio sobre a ponta dos Búzios e começaram a conceder a posse temporária dessas terras aos arrematantes do contrato monopolista de fabricação e exportação do óleo e das barbatanas de baleias. O inicio do entreposto baleeiro não foi fácil, em função do problema relativo à propriedade da ponta dos Búzios e de outros interesses locais contrariados. O requerimento dos jesuítas contra a escolha do sitio, o bloqueio anônimo da estrada de acesso a Cabo Frio, o boato tenebroso sobre eminente ataque indígena de São Pedro e a recusa de venda de mantimentos a preços médios regionais prejudicaram a construção do estabelecimento.

Na praia do porto da Armação, foram levantadas a fábrica com as fornalhas para queima da gordura e os tanques de armazenamento do óleo, a casa-grande dos administradores, a senzala dos numerosos escravos, outras edificações auxiliares de menor tamanho e a capela de Santana – único prédio remanescente dessa época. Além da designação dada ao posterior distrito e atual município, a memória da Armação permanece viva nos nomes da ponta da Matadeira – local em que a baleia depois da arpoação era morta para da retirada das barbatanas – e da praia dos Ossos – local em que se enterrava a ossada desses grandes mamíferos marinhos. A Armação de Baleias dos Búzios funcionou entre 1728 e 1768, embora tenha havido uma tentativa infrutífera de reativá-la no princípio do século XIX. A queda da lucratividade foi compensada pelos últimos arrematantes do contrato por meio de contrabando de pau-brasil e até mesmo de ouro com embarcações norte-americanas que buscavam abrigo no porto sob qualquer pretexto. Tratavam-se de verdadeiros navios-fábricas de pesca e processamento industrial de baleias, responsáveis pela quase extinção desses cetáceos na costa brasileira à época. Eram autênticas armações marinhas de longo curso que decretaram a falência das armações terrestres imóveis de captura litorânea.

Um mapa da Capitania do Rio de Janeiro elaborado no final do século XVIII,

permite observar pequenas clareiras em torno de florestas abertas por algumas fazendolas junto à confluência das estradas Cabo Frio-Búzios e Cabo Frio-Baia Formosa, possivelmente, dedicadas à extração de madeiras nobres para o Rio de Janeiro e à agricultura de subsistência, enquanto a ponta dos Búzios parece deserta e com a cobertura vegetal quase toda intacta. Ao sul e a noroeste destas pequenas propriedades localizam-se, respectivamente, as enormes clareiras da fazenda de gado dos beneditinos e da fazenda agro-pastoril de Campos Novos, denominada "d’el Rey", após a expulsão dos jesuítas do território brasileiro, e logo arrendada em hasta pública por rico comerciante. Segundo revela um documento de autoria anônima da mesma época, o governo colonial continuava preocupado com a possibilidade de desembarque inimigo ou de tráfico de pau-brasil na ponta dos Búzios e colocou um destacamento militar nas proximidades da praia de João Fernandes para desestimular eventuais tentativas estrangeiras.

No período imperial, logo após a independência brasileira, supõe-se que famílias pobres de homens livres sem terra ocuparam e tomaram posse irregular de pequenas áreas próximas ao antigo estabelecimento baleeiro, em busca de sobrevivência econômica e em função da incerteza ainda vigente sobre a propriedade da ponta dos Búzios. Dedicaram-se à pesca, à salga de peixes, à plantação de mandioca e à fabricação da chamada farinha de mesa. Apenas comercializavam o peixe salgado com compradores ambulantes que transportavam essas conservas em tropas de burros para vendê-las no interior da região ou intermediavam sua exportação para o Rio de Janeiro (via Cabo Frio). O entorno da ponta dos Búzios permanecia ocupado por pequenas fazendas que se dedicavam à extração de madeiras nobres, ao cultivo da mandioca e ao preparo da farinha, enquanto estabelecimentos rurais de maior grandeza, afastados da costa, começavam a plantar café em grande escala. Ambos, empregavam mão-de-obra africana e exportavam as respectivas produções para o Rio de Janeiro (via Cabo Frio). Outro gênero que começa a ser embarcado para o Rio de Janeiro é o sal da primeira salina artificial da lagoa de Araruama, cujo desenvolvimento só vai tomar vulto no fim do período imperial.

As noticias sobre a presença de quilombos nas áreas interiores do território de Armação dos Búzios e em outros “sertões” de Cabo Frio, com densa cobertura vegetal ou ocorrência de pantanais e brejais, tornaram-se bastante freqüentes a partir da primeira metade do século XIX, embora haja a presunção de que esses escravos fugitivos tivessem alta mobilidade espacial e enganassem as milícias dos capitães-do-mato. Em meados do século, as praias Rasa e José Gonçalves foram usadas como pontos de desembarque clandestino do tráfico negreiro africano, depois que as autoridades imperiais proibiram esse comércio infame no território brasileiro. Alguns navios da marinha de guerra nacional passaram então a cruzar o litoral fluminense à procura não só dos “tumbeiros”, mas, também, de traficantes de pau-brasil, embora sem qualquer resultado. E as autoridades judiciais e policiais de Cabo Frio apenas se movimentavam quando o desembarque de africanos acontecia em praias próximas à sede municipal e o assunto virava escândalo público. Porém, a repressão eficaz e ilegal ficou por conta das embarcações inglesas de guerra – em obediência às ordens e aos interesses econômicos britânicos -, que aprisionavam tanto veleiros portugueses quanto brasileiros no litoral da região, com os porões cheios de africanos escravizados. Chegaram até a desembarcar tropas no porto de Búzios, apesar de ficarem surpresos com as idéias contrárias ao cativeiro dos negros.

A partir da segunda metade do século XIX, as propriedades cafeeiras situadas

no entorno da lagoa de Araruama começaram a entrar em decadência. As principais causas foram o esgotamento do solo destas terras pouco propícias ao cultivo de café, as pragas na lavoura, a proibição da entrada de novos escravos africanos no país, o desinteresse dos fazendeiros pelo trabalho livre de colonos europeus e o deslocamento da frente produtora para as áreas virgens no vale do Paraíba. Vale ressaltar que, desta vez, a lucratividade cessante não pode ser compensada pelo contrabando de pau-Brasil, em vista da descoberta européia da anilina sintética para tingimento de tecidos, muito mais barata do que a utilização da ibirapitanga para a mesma finalidade.

Outro fator de queda da produção agrícola regional foi o aparecimento sucessivo de epidemias de varíola, cólera e febre amarela que tiveram efeitos devastadores nas propriedades rurais e mesmo nos núcleos urbanos até a segunda década do século XX. Além da grave questão sanitária, a comunidade pesqueira da ponta dos Búzios viu-se obrigada a esconder seus filhos contra as verdadeiras caçadas humanas que realizaram os recrutadores profissionais de “Voluntários da Pátria” (sic) durante a Guerra do Paraguai. Os padrões sócio-econômicos tradicionais continuaram a ser rompidos com a entrada cm vigor das leis do “ventre livre” e dos “sexagenários” que jogaram a pá de cal na atividade agrícola remanescente e causaram efervescência nas derradeiras senzalas da região. Pouco depois da assinatura da chamada “Lei Áurea”, escravos fugitivos ou ex-escravos libertos ocuparam e tomaram posse irregular de áreas junto às praias Rasa e José Gonçalves.

Segundo entrevistas editadas em dois livros sobre a região, durante a etapa inicial do período republicano, o novo proprietário da Fazenda Campos Novos teria começado a comprar grandes extensões de terra na ponta dos Búzios e no seu entorno para fins de especulação imobiliária, à vista que o governo federal pretendia construir uma ferrovia para exportação do ferro de Minas Gerais pelo porto da Armação – único fato confirmado pelas Atas da Câmara Municipal de Cabo Frio. A reconcentração do domínio particular sobre grandes extensões territoriais por poucos indivíduos ~ou companhias, cujos domicílios ou sedes estiveram ou ainda estão na cidade do Rio de Janeiro (mesmo em São Paulo e até no exterior), geraram e ainda geram conseqüências sócio-econômicas importantes. Outra questão em aberto é o uso dado pelo novo proprietário às terras. A informação de uma das entrevistas refere-se a extensas plantações de banana e a exportação dessas frutas pelo porto da Armação em navios de bandeira estrangeira – t’atos sem confirmação nas fontes históricas consultadas.

Neste inicio de século, Armação dos Búzios começou a ser frequentada por mercadores ambulantes de nacionalidade italiana, turca e portuguesa que vendem panos e outros objetos aos moradores. Muitos casaram-se com filhas

  1. pescadores ou de donos de pequenas fazendas, constituíram famílias e abriram vendas em Armação, Manguinhos e Saco Fora – então sede do 3º distrito.

A produção de peixe salgado da Armação e de bananas da Rasa ou de Saco Fora era comprada por negociantes e transportada em tropas de burros para Cabo Frio. A estrada de acesso à sede municipal continuava muito precária, embora fosse vencida pelas tropas de muares, a cavalo e por gente a pé – conforme notícias orais sobre a festa de N.Sra. da Assunção e sobre a busca de emprego pesqueiro em Niterói ou no Rio de Janeiro. A única escola pública localiza-se em Manguinhos, onde, estava também o cemitério, ambos inaugurados no fim do século XIX. Quase não havia diversão comunitária, exceto retretas esporádicas da banda de música de Cabo Frio e a tradicional festa de Santana, apesar do padre só vir rezar missa ou celebrar outros atos religiosos em datas especiais. Logo surgiu o primeiro templo metodista e a seguir o pentecostal

A vida cotidiana da população local permanecia muito difícil. A água potável

só existe em alguns poços públicos ou particulares espalhados pela ponta dos Búzios, mesmo assim alguns definham durante períodos mais secos e alguns ficam contaminados por diversos fatores. Emprega-se lamparinas de óleo de mamona ou de querosene para iluminação noturna das casas e faz-se necessário ter sempre lenha para o preparo das refeições diárias. A base alimentar são os frutos do mar – com destaque ao peixe fresco – a farinha de mandioca, a banana e as frutas silvestres de época, embora certas famílias utilizem banha e carne de porco, provenientes de suas criações domésticas, mas, talvez, apenas em ocasiões especiais. Sal, café e aguardente eram também indispensáveis, se bem que fossem comprados nas vendas locais. As moradias são pequenas casas baixas, construídas de pau-a-pique e cobertas por telhas coloniais, caiadas de branco por fora e por dentro, dentro, quase todas com um terreiro onde plantavam e cultivavam árvores frutíferas e plantas medicinais. A arquitetura simples adaptava~se às condições climáticas, aos ventos dominantes e à ambientação do entorno.

Em 1927, o neto do proprietário da fazenda Campos Novos tornou-se o primeiro dono de casa de veraneio na praia da Armação e assim é considerado o turista inicial de Búzios. Apesar da surpresa, a vida cotidiana da população logo voltou ao normal e os moradores só ficaram de novo perplexos com a passagem do dirigível alemão Zepelim sobre a ponta dos Búzios e mais assustados ainda com a chegada da 2ª Guerra Mundial o Brasil – país até então neutro. Em 1939, o cargueiro Wakama foi incendiado e afundado pelos próprios tripulantes ou pelos tiros de canhão de um navio de guerra inglês junto ao litoral de Búzios, depois de receber e não atender a intimação para vistoria. O temor dos moradores foi substituído pela alegria de apanhar dezenas de latas intactas de banha pertencentes à carga do Wakama que foram dar nas praias da ponta dos Búzios.Porém, o medo da presença de submarinos italianos e alemães próximos da costa, além da possibilidade de desembarques inimigos em praias ermas, prevaleceram e duraram enquanto a guerra não chegou ao fim, principalmente, depois que uma dessas embarcações subiu à tona perto da ilha Ancora e abordou um bote de pesca para tentar se abastecer de alimentos frescos. O fato foi comunicado à Capitania dos Portos de Cabo Frio pelos tripulantes que, depois, receberam condecorações de guerra da Marinha do Brasil.

Antes do conflito mundial terminar, a população do 30 distrito foi beneficiada pela implantação da linha de ônibus Cabo Frio – Armação dos Búzios, pertencente à Viação Salineira – cujos trajetos e horários ainda hoje encontram-se em expansão -, que facilitou o acesso tanto aos serviços módicos e educacionais quanto ao comércio, ao lazer a ás repartições públicas federais, estaduais e municipais da Cidade de Cabo Frio. Em 1951, quando a sede do município se inicia na atividade turística, o presidente da empresa aérea Cruzeiro do Sul construiu uma casa de veraneio na praia de Manguinhos, atraído pela possibilidade da prática de pesca submarina nessas águas férteis e pela magia da natureza local quase intocada. Envolveu-se de tal forma com a comunidade que reconstruiu a estrada Rasa-Armação, para facilitar o escoamento do pescado daquela localidade. Reconstruiu, também, o grupo escolar de Manguinhos, além de patrocinar as obras da igreja de Santa Rita de Cássia e do cais de proteção à colina da igreja de Santana. O benfeitor foi nomeado administrador honorário do 3º distrito e seu entusiasmo contagiante atraiu turistas para Armação dos Búzios. Esta atividade ainda incipiente logo recebeu projeção nacional e internacional durante a estadia de uma famosa atriz francesa de cinema em 1964 e começou a se consolidar após a inauguração da ponte Rio – Niterói em 1974

Nos anos anteriores e posteriores, o pequeno grupo de proprietários de

grandes extensões de terra em Armação dos Búzios, com a conivência do poder executivo e legislativo municipal, deu a orientação decisiva à direção assumida pelo impulso turístico no 30 distrito, apesar da comunidade ter conseguido eleger diversos vereadores ao longo desse período. Sem cuidado particular na preservação do patrimônio natural e cultural, priorizou-se o loteamento extensivo do solo para construção de casas de veraneio que tornaram ainda mais deficientes serviços públicos federais ou estaduais de eletricidade, água e telefone, apesar das restrições edificantes impostas pela administração municipal entre 1977 e 1982. O surto desenvolvimentista foi acompanhado em menor escala pelo estabelecimento de charmosas pousadas, restaurantes, bares, casas noturnas e boutique, além de se observar um esforço maior da tradicional atividade pesqueira e da caça submarina que trouxeram danos ao ambiente marinho.

Depois da burguesia carioca, paulista e mineira, deu-se a chegada da classe média carioca e brasileira, de turistas argentinos e outros visitantes estrangeiros, entre os quais, alguns escolheram morar e abrir negócios na Armação. Mas, igualmente, vieram migrantes pobres que promoveram a ocupação irregular de certas áreas e deram origem aos bairros populares.

Hoje, os estabelecimentos de hospedagem já constituem um original parque hoteleiro que está complementado por grande variedade de serviços turísticos. O acesso é feito por duas estradas vicinais asfaltadas, um aeroporto e uma marina, em meio à continua expansão dos loteamentos e das construções de veraneio, inclusive de alguns condomínios fechados de qualidade duvidosa, para o bem ou para o mal da população e do meio ambiente de Armação dos Búzios

A circulação de riqueza impulsionada pelo turismo formou uma ativa classe

média no 3º distrito, deu oportunidade ao aparecimento de meios locais de comunicação de massa – até mesmo uma rádio e uma televisão, embora apenas tenham permanecido alguns jornais em circulação, entre eles, o pioneiro “Peru Molhado”- , que ajudaram a desenvolver o sentimento nativista da população. Os moradores locais, os proprietários influentes de segunda residência (veraneio) e os donos de grandes extensões de terra em Armação dos Búzios tornaram~se cada vez mais insatisfeitos com o tratamento político injusto e depreciativo que recebiam do poder executivo e legislativo de Cabo Frio, inclusive pela falta de repasse em obras públicas da correspondente parcela sobre os “royalties” de petróleo e gás, cuja exploração se intensificava na plataforma submarina fronteira do distrito. Mas, a gota d’água foi fruto de duas lamentáveis administrações municipais que ocorreram nos períodos 1983-1988 e 1989-1992. O processo de emancipação do Arraial do Cabo, antigo 4º distrito, em meados da década de 80, serviu de inspiração ao povo do 3º distrito, que soube tirar partido da colaboração do prefeito municipal (1993-1996) e do governador estadual (1995-1998) para libertar Armação dos Búzios de Cabo Frio.

O movimento emancipacionista iniciado no fim da década de 80, a posterior criação do novo município em 1995 e a subseqüente eleição para prefeito e vereadores em 1996 são as páginas históricas mais brilhantes escritas pelo povo de Armação dos Búzios, embora trate-se apenas de importante capitulo modificador da estrutura política-administrativa e só potencialmente transformador da estrutura sócio-econômica tocai. Contudo, é imensa a possibilidade de um futuro imediato mais promissor, desde que as autoridades municipais atendam os anseios populares por condições dignas de vida e trabalhem a favor do desenvolvimento econômico auto-sustentável de Armação dos Búzios.

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